Cristiane Souza
Essa história aconteceu em meados nos anos 70. Era mês de
junho, o clima era de muito frio na cidade de Mirabela, Minas Gerais. Nessa
época tudo era muito simples. Maria era uma jovem mulher com um pouco mais de
30 anos. Casada e com filhos pequenos.
Naquele tempo não era comum mulher trabalhar fora e, emprego
numa cidade pequena como aquela era difícil. O marido de Maria trabalhava fora
para trazer dinheiro e Maria ficava com as crianças, cuidava da casa e tinha
outros afazeres como cuidar de sua horta, lavar roupa no rio, ou costurar.
Manter uma família bem alimentada era difícil. E nessa época os mantimentos
estavam acabando. Então Maria teve a ideia de fazer farinha de milho que serviria
para alimentar as crianças por vários dias. Eles tinham uma pequena roça de
milho afastada da cidade e Maria se preparou para ir à roça no início da noite.
Ela iria virar a noite trabalhando e ao raiar do dia estaria de volta. Ela chamou
suas filhas Rejane e Ester para ir com ela e lhe fazer companhia, mas ambas não
quiseram ir. Alegaram estar cansadas.
Então, ao cair da noite, lá se foi Maria trabalha na casa de
farinha na sua pequena roça.
A lua estava cheia e era a única luz praqueles lados. Diferente
dos outros dias, Maria sentia que alguma coisa não estava certa. Ela estava
apreensiva, temerosa e não entendia porque, afinal, ela já tinha feito aquele
caminho inúmera vezes. Mas aquele dia algo estava diferente. Dava para sentir.
Então Maria sorriu e pensou: -- Para de besteira, não vai acontecer nada.
E nada aconteceu. Ela chegou ao seu destino e ficou até
aliviada, pensando: Ufa! Até que enfim cheguei.
Bem disposta já foi preparar a lenha e o fogão rapidamente.
Limpou o tacho, mas alguma coisa não estava certa: O silêncio ... não se ouvia
barulho de nenhum animal, nem qualquer ruído. Nada.
No relógio velho na parede de taipa já rompia meia noite. O
milho estava sendo ralado para depois torrar e virar farinha. Quando não longe
dali Maria ouviu um uivo:
--- Auuhhhhhhh ,
Auuhhhhhhh, Auuhhhhhhh
E um arrepio percorreu todo o corpo de Maria e um medo
tomava conta. Ela já estava preocupada, pois com aquele uivo horrível veio à agitação
dos animais que até então não haviam se manifestado. A partir daquele estranho
uivo todos os animais ficaram agitados e berravam e grunhiam como se quisessem
fugir.
Maria dentro daquele casebre não esboçava nenhuma reação.
Paralisada, ela tentava se manter fria diante do medo. Foi quando de repente as
paredes do casebre começaram a balançar. O telhado trincar e estralar. As
galinhas lá fora faziam grande barulho.
Maria tentava visualizar o lado de fora pelas brechas da parede, mas
estava muito escuro lá fora. Foi quando do nada alguma coisa se chocou com
força contra a parede do casebre como se quisesse derrubar tudo. Foi tão forte
que Maria caiu no chão. E então se levantou de pressa e correu para trancar a
porta e foi aí que ela viu pela brecha da porta aquela coisa que a quase matou
de medo. Parecia um lobo selvagem correndo em velocidade anormal. Seus olhos
brilhavam como fogo. Andava em duas pernas e nele havia vestígios do que
pareciam pedados de roupas ou trapos.
Foi aí que Maria caiu em si e percebeu que aquela fera não
era só um animal, mas um lobisomem... Maria estava incrédula. Aquilo não podia
ser verdade. Maria chorava de desespero porque acreditava que ia morrer. Pela
brecha da porta ela via os animais sendo devorados pela fera e a única coisa
que passava em sua cabeça era fugir dali. Ela queria uma chance de ir embora e
rezava para isso. Num surto de coragem ela resolveu que sua vida não ia acabar
ali. Maria então resolveu enfrentar a fera e bolou rapidamente um plano. Respirou fundo, apagou o lampião e abriu a
porta devagar e ficou a postos esperando a fera entrar. Quando antes de piscar
o olho aquela aberração entrou no casebre com olhos de fogo e a presa afiada se
aproximou devagar. Maria então jogou o querosene do lampião na cara da fera que
num pulo se afastou ligeiro. Maria pegou uma tora de madeira com chamas do
fogão e ateou fogo na fera. Os uivos de dor e desespero tomou conta do lugar. A
fera corria a se esfregar no chão tentando apagar o fogo, mas não conseguia. A fera
então correu pra floresta tentando se salvar. Maria por outro lado correu para
a estrada passando por cima dos corpos destroçados das galinhas e ovelhas. Ate
hoje Maria conta a história do seu encontro com a fera e como era feliz por
estar viva para contar essa historia.
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