quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Foi rei com certeza

Cristiane de Souza

Se foi rei ou capitão do cangaço não sei
Mas foi corajoso e destemido, isso eu sei
Não abaixava a cabeça para coronel
Instruído em desaforo, dedos cheio de anéis
Coitado de quem pisava no seu calo
Levantava poeira na caatinga do nordeste
 sem descer do seu cavalo
Ir contra o sistema foi seu defeito
E nem perdendo a cabeça teve medo
E que o nordeste não se esqueça
Que pra lutar pelo que se acredita
Não é preciso ter riqueza
Só vontade de viver com dignidade
Essa vida de dureza


O uivo da fera


Cristiane Souza

Essa história aconteceu em meados nos anos 70. Era mês de junho, o clima era de muito frio na cidade de Mirabela, Minas Gerais. Nessa época tudo era muito simples. Maria era uma jovem mulher com um pouco mais de 30 anos. Casada e com filhos pequenos.
Naquele tempo não era comum mulher trabalhar fora e, emprego numa cidade pequena como aquela era difícil. O marido de Maria trabalhava fora para trazer dinheiro e Maria ficava com as crianças, cuidava da casa e tinha outros afazeres como cuidar de sua horta, lavar roupa no rio, ou costurar. Manter uma família bem alimentada era difícil. E nessa época os mantimentos estavam acabando. Então Maria teve a ideia de fazer farinha de milho que serviria para alimentar as crianças por vários dias. Eles tinham uma pequena roça de milho afastada da cidade e Maria se preparou para ir à roça no início da noite. Ela iria virar a noite trabalhando e ao raiar do dia estaria de volta. Ela chamou suas filhas Rejane e Ester para ir com ela e lhe fazer companhia, mas ambas não quiseram ir. Alegaram estar cansadas.
Então, ao cair da noite, lá se foi Maria trabalha na casa de farinha na sua pequena roça.
A lua estava cheia e era a única luz praqueles lados. Diferente dos outros dias, Maria sentia que alguma coisa não estava certa. Ela estava apreensiva, temerosa e não entendia porque, afinal, ela já tinha feito aquele caminho inúmera vezes. Mas aquele dia algo estava diferente. Dava para sentir. Então Maria sorriu e pensou: -- Para de besteira, não vai acontecer nada.
E nada aconteceu. Ela chegou ao seu destino e ficou até aliviada, pensando: Ufa! Até que enfim cheguei.
Bem disposta já foi preparar a lenha e o fogão rapidamente. Limpou o tacho, mas alguma coisa não estava certa: O silêncio ... não se ouvia barulho de nenhum animal, nem qualquer ruído. Nada.
No relógio velho na parede de taipa já rompia meia noite. O milho estava sendo ralado para depois torrar e virar farinha. Quando não longe dali Maria ouviu um uivo:
 --- Auuhhhhhhh , Auuhhhhhhh, Auuhhhhhhh
E um arrepio percorreu todo o corpo de Maria e um medo tomava conta. Ela já estava preocupada, pois com aquele uivo horrível veio à agitação dos animais que até então não haviam se manifestado. A partir daquele estranho uivo todos os animais ficaram agitados e berravam e grunhiam como se quisessem fugir.
Maria dentro daquele casebre não esboçava nenhuma reação. Paralisada, ela tentava se manter fria diante do medo. Foi quando de repente as paredes do casebre começaram a balançar. O telhado trincar e estralar. As galinhas lá fora faziam grande barulho.  Maria tentava visualizar o lado de fora pelas brechas da parede, mas estava muito escuro lá fora. Foi quando do nada alguma coisa se chocou com força contra a parede do casebre como se quisesse derrubar tudo. Foi tão forte que Maria caiu no chão. E então se levantou de pressa e correu para trancar a porta e foi aí que ela viu pela brecha da porta aquela coisa que a quase matou de medo. Parecia um lobo selvagem correndo em velocidade anormal. Seus olhos brilhavam como fogo. Andava em duas pernas e nele havia vestígios do que pareciam pedados de roupas ou trapos.
Foi aí que Maria caiu em si e percebeu que aquela fera não era só um animal, mas um lobisomem... Maria estava incrédula. Aquilo não podia ser verdade. Maria chorava de desespero porque acreditava que ia morrer. Pela brecha da porta ela via os animais sendo devorados pela fera e a única coisa que passava em sua cabeça era fugir dali. Ela queria uma chance de ir embora e rezava para isso. Num surto de coragem ela resolveu que sua vida não ia acabar ali. Maria então resolveu enfrentar a fera e bolou rapidamente um plano.  Respirou fundo, apagou o lampião e abriu a porta devagar e ficou a postos esperando a fera entrar. Quando antes de piscar o olho aquela aberração entrou no casebre com olhos de fogo e a presa afiada se aproximou devagar. Maria então jogou o querosene do lampião na cara da fera que num pulo se afastou ligeiro. Maria pegou uma tora de madeira com chamas do fogão e ateou fogo na fera. Os uivos de dor e desespero tomou conta do lugar. A fera corria a se esfregar no chão tentando apagar o fogo, mas não conseguia. A fera então correu pra floresta tentando se salvar. Maria por outro lado correu para a estrada passando por cima dos corpos destroçados das galinhas e ovelhas. Ate hoje Maria conta a história do seu encontro com a fera e como era feliz por estar viva para contar essa historia.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Regada a lágrimas

Cristiane de Souza

A fonte quebrada não dá água

A árvore seca não dá frutos
A burrice anda lado a lado da inteligência
da mesma forma que aquele que não quer ouvir, 
tem muito a dizer

O que o fruto da sua ignorância me oferece?
Tumulos molhados de lágrimas e pesar
capacidade e potências disperdiçadas
enterrados pelo sistema desigual

Arte sem cor, sem vida
vidas despreparadas
vidas derramadas
vidas guiadas pelo cano de uma pistola
e derramada no fio de uma faca

Vida que caminha para a boca aberta do São Luiz
com crisântemos regados a lágrimas 
e com terra regadas a dor

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Esse blog é da pesada


Não sou o que eu peso!

Cristiane de Souza

Porque ser gorda é ruim?
Às vezes me pego pensando
Porque não sou bonita assim
do tamanho que eu sou?

É muito triste tentar sempre fazer o melhor
E perceber que todas as suas qualidades não são suficientes se o seu manequim não for padrão
Se esforçar tanto para ser boa e suas dobrinhas ser empecilho para vencer.

Me sinto um ser humano normal e completo
e queria ser tratado assim.
Afinal o numero do meu manequim não me define.
Aquele que te olha e te julga ou ri do seu tamanho não sabe o mal que te faz.
Não sabe como é difícil você passar a vida com fome.
Passar a vida ignorando o ronco do estomago vazio

Um dia entrei no ônibus
E ao passar na catraca, tive dificuldades.
Senti muito medo de ficar presa ali.
Já imaginou! Acho que morreria!
Percebi os olhares no ônibus sobre mim e
conseguia decifrar o que cada olhar dizia.
Cheguei a ver até nojo, me parecia.
Vi nos olhares pessoas torcendo para que acontecesse o pior.
Celulares apostos para um possível vídeo cômico.
Naquele momento fiquei com vergonha
mas com muito esforço, girei a catraca e passei.
Abaixei a cabeça e sentei no fundo do ônibus.
Ninguém devia se sentir assim.

O gordo tem qualidades, também é bonito
e também tem sangue vermelho correndo nas veias.

Gordo não é leproso ou doente contagioso.

Saiba que seu olhar de desprezo machuca.
Saiba que as suas piadinhas não tem graça.
Saiba que o coração de um gordo sofre e fica triste.

O gordo chora, dá risada, escreve, cozinha, saber limpar, tem talentos, sabe beijar na boca como você, lê e escreve e às vezes até melhor que muitos.

Meu nome é Cristiane. Tenho 33 anos e quatro filhos. Sou casada há 16 anos. Sou excelente cozinheira. Sou boa dona de casa. Estou sempre disposta a ajudar. Não desisto fácil e consigo suportar coisas que você nem sonharia.
Eu tenho 1,79 de altura e peso 130 quilos. Meu manequim é 54. Gosto de ler, escrever, desenhar, ouvir musica.

Quando você me encontrar na rua não fique me rotulando. Posso surpreender você.